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ARTIGOS

Inteligência artificial, matriz energética e soberania

Bianca Bez, Daniel Becker

Publicado no Eixos.

O mercado global de energia vive uma mudança silenciosa, porém definitiva: a discussão deixou de orbitar a substituição — petróleo saindo, renováveis entrando — e passou a gravitar em torno da expansão.

O mundo não está falando apenas de transição energética, mas de adição energética: mais petróleo e gás, mais renováveis, mais redes, mais armazenamento, mais conectividade e, sobretudo, mais eletricidade para alimentar o novo motor da economia mundial — a inteligência artificial.

O momento é paradoxal, mas lúcido: descarbonizar continua sendo imperativo, porém o caminho pragmático aceito pelos grandes players passa pela convivência simultânea de múltiplas fontes.

O petróleo e o gás voltam a ser celebrados como aceleradores de crescimento, as renováveis se consolidam como vetor de competitividade, e a infraestrutura de redes e digitalização se torna o gargalo central da próxima década.

Esse é o retrato global. E é exatamente aqui que a pergunta incômoda surge: onde o Brasil está nesse jogo?

O Brasil vive uma condição híbrida e, ao mesmo tempo, perigosa. Possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, algo que qualquer país desenvolvido invejaria.

Mas também possui uma das infraestruturas mais subdimensionadas para uma economia que se prepara para IA, data centers, carros elétricos, automação industrial, 5G, digitalização das cadeias produtivas etc.

Enquanto o mundo realoca trilhões para redes inteligentes, linhas de transmissão, sistemas de armazenamento e cibersegurança energética, o Brasil ainda debate se a regulação acompanha ou freia.

E, aqui, entra a camada comportamental: o país está aprisionado na ilusão da matriz limpa — um viés de confirmação sofisticado, que produz sensação de conforto e reduz a percepção de urgência.

O fato de termos renováveis não significa que tenhamos energia barata, nem energia disponível nos pontos de consumo, nem segurança jurídica para capital intensivo, nem previsibilidade regulatória compatível com investimentos de 20 a 40 anos.

Ainda tratamos energia como um setor, quando o mundo já a trata como infraestrutura decisória de competitividade. Quem controla energia controla IA. Quem controla IA controla inovação. E quem controla inovação define o futuro industrial.

Esse elo só fica invisível para países que ainda acreditam que energia é só “conta de luz”. O custo disso não é filosófico; é econômico.

Um país que traz data centers, mas não ajusta a regulação da energia; que estimula veículos elétricos, mas não constrói rede de recarga; que subsidia inovação, mas ignora o custo marginal da eletricidade na indústria, comete um erro estratégico clássico: incentiva o consumo antes de garantir a oferta.

E, quando a conta chega, improvisa. A improvisação, no setor energético, costuma custar décadas.

O que está em jogo é a precificação do futuro. Investir em infraestrutura hoje parece caro, não investir será impagável.

Atrasar licenciamento parece pragmático, continuar perdendo projetos para países que oferecem previsibilidade é suicídio econômico.

Inteligência Artificial; IA; Energia; Energia Renovável; BBL Advogados